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sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Morro dos Ventos Uivantes


"Dizes que te matei, persegue-me então! A vítima persegue seus matadores, creio eu. Sei que fantasmas têm vagado pela terra. Fica sempre comigo... encarna-te em qualquer forma... torna-me louco! Só não quero que me deixes neste abismo, onde não posso te encontrar! Oh, Deus! é inexprimível! Não posso viver sem minha vida! Não posso viver sem minha alma!"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Satolep, Vitor Ramil



Eu, que vivo no gasômetro, tenho tomado distância de tudo o que é sólido. À margem das formas, sou reservatório de coisas desfeitas.
É meu o rosto líquido que vejo na poça de chuva esquecida pela terra sob minha janela, rosto de quem quis infinitamente comprimir os fluidos da vida na esperança de guardá-la.
No gasômetro as coisas não são sólidas, mas custam a passar. Hoje um grito de criança, sumido da varanda em meu passado, veio vibrar sobre o telhado como o canto de uma ave vindo organizar no ninho antes de morrer; ontem, foi um pardal que desceu na água. Ainda posso vê-lo, agora que partiu, capturado pela luz no álbum aberto dessa superfície onde meu olhar move-se em pequenas ondas, devagar. Embalados pela brisa piedosa, esses pobres olhos feitos de restos de chuva imitam os imensos reservatórios que dançam lentamente, atrás. Não há música em mim que possa animá-los. No gasômetro venta, mas as coisas são silenciosas. Só o grito da criança no telhado se propaga. Meu rosto na água não ousa espiá-la. Por que me chama? O que pode esperar de mim? Sou uma mulher às voltas com o que não tem volta. Faz muito frio, não me deixariam ir lá fora. Dorme menina, dorme. No gasômetro as coisas custam a passar...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Trecho de "Hamlet", Shakespeare


Onde há um salgueiro que se inclina sobre o arroio

E espalha as folhas cinza na corrente vítrea,

Ela fazia umas grinaldas fantasiosas,

Tecendo as folhas do chorão com margaridas,

Ranúnculos, urtigas, e as compridas flores

De cor purpúrea que os pastores, sem modéstia,

Chamam com um nome forte, mas que as nossas virgens

Conhecem, castas, como “dedos-de-defunto”.

Galgando a árvore com o fim de pendurar

Essa coroa vegetal nos ramos pensos,

Maldoso um galho se partiu, e ela tombou

Com seus troféus herbóreos no plangente arroio.

Abriram-se-lhe em torno as vestes, amplamente,

Mantendo-a à tona qual sereia, por instantes:

E ela cantava trechos de canções antigas,

Como que sem noção do transe em que se achava,

Ou como criatura que, nascida na água,

A esse elemento fosse afeita. Mas, em breve,

As suas vestes, já embebidas e pesadas,

Levaram a infeliz, do canto melodioso

Para lodosa morte.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Trecho de "Romeu e Julieta" Shakespeare


"Nesse lugar freqüentemente é visto,
A tentar engrossar com as lágrimas que chora
O fresco pranto matinal da aurora,
E as nuvens com a fumaça dos suspiros.
Logo, porém, que o sol, que alegra a todos,
No mais longínquo extremo do oriente
Do leito da manhã abre a escura cortina,
Meu filho, cheio de melancolia,
Para fugir da luz, vem para casa
E, fechando as janelas do seu quarto,
Cria artificialmente para si
Uma noite mais negra à luz do dia."



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ana Terra, parte d'O Continente, Veríssimo


Ana sentia-se animada, com vontade de viver, sabia que por piores que fossem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as que já tinha sofrido. Esse pensamento dava-lhe uma grande coragem. E ali deitada no chão a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. Tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana estava agora decidida a contrariar o destino. Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. Vivia com o medo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto... Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve. E agora ela tinha enterrado o pai e o irmão e ali estava, sem casa, sem amigos, sem ilusões, sem nada, mas teimando em viver. Sim, era pura teimosia. Chamava-se Ana Terra. Tinha herdado do pai o gênio de mula.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Caçador de Pipas, Khaled Hosseini


"Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975. Lembro do momento exato em que isso aconteceu, quando estava agachado por detrás de uma parede de barro parcialmente desmoronada, espiando o beco que ficava perto do riacho congelado. Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trás, agora, percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto."

...

“Um dia, no verão passado, meu amigo Rahim Khan me ligou do Paquistão. Pediu que eu fosse vê-lo. Parado ali na cozinha, com o fone no ouvido, sabia muito bem que não era só Rahim Khan que estava do outro lado daquela linha. Era o meu passado de pecados não expiados.”

...

"Sentei em um banco do parque, perto de um salgueiro. Pensei em uma coisa que Rahim Khan disse um pouco antes de desligar, quase como algo que lhe houvesse ocorrido no último minuto. "Há um jeito de ser bom de novo." Ergui os olhos para as pipas gêmeas. Pensei em Hassan. Pensei em baba. Em Ali. Em Cabul. Pensei na vida que eu levava até que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo. E fez de mim o que sou hoje."

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A cidade do sol, Khaled Hosseini


“Uma jovem Mariam está sentada junto á mesma, fazendo uma boneca á luz de uma lamparina a óleo. Esta cantarolando. Tem o rosto suave e juvenil, o cabelo foi lavado e está penteado para trás. E não lhe falta nenhum dente.

Laila a vê colar pedaços de lã na cabeça da boneca. Em poucos anos essa menina vai ser uma mulher que pede muito pouco da vida, que nunca incomoda ninguém, que nunca deixa transparecer que ela também tem tristezas, desapontamentos, sonhos que foram menosprezados. Uma mulher cuja generosidade, longe de ser contaminada, foi forjada pelas turbulências que se abateram sobre ela. Laila já consegue ver algo nos olhos daquela menina, algo tão arraigado que nem Rashid nem os talibãs conseguiriam destruir. Algo tão rijo e inacabável quanto um bloco de calcário. Algo que, afinal acabou sendo sua ruína e a salvação de Laila. A menina ergue os olhos. Deixa a boneca de lado. E sorri. - ‘Laila jo?’”

terça-feira, 2 de junho de 2009

A menina que roubava livros


UMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA
Os seres humanos me assombram.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry

Vou falar de um clássico que muitos já leram, mas que vale a pena comentar.


A parte da raposa, na minha opinião é a parte mais bonita do livro

- Eu procuro amigos. O que quer dizer ‘cativar’?
- É algo quase esquecido- disse a raposa- significa ‘criar laços’...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…
...
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…”

sábado, 23 de maio de 2009

O encontro marcado, Fernando Sabino



“O silêncio é a linguagem de Deus. No principio era tudo o Verbo, vocês sabem o que é isso? O silencio, o espantoso silêncio do principio. Ah! O verbo e o silêncio são a mesma coisa. É preciso escutar o silêncio, não como um surdo, mas como um cego! O silêncio das coisas tem um sentido. Quem não entende isso não entende nada...”


“A música é a expressão mais completa do que estou dizendo. Ou do que não estou dizendo, pois é preciso ouvir apenas o que não se diz. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. A música também é silêncio. Bach sabia disso, Mozart também. Beethoven só soube quando ficou surdo. O ar não é silêncio? O vento não faz barulho? E o que é o vento senão ar? A música é o silêncio em movimento.”

quarta-feira, 6 de maio de 2009

o Menino do Pijama Listrado



Uma parte da história:

"...Por toda parte que olhavam, viam pessoas altas e baixas, velhas e jovens, todas perambulando. Algumas ficavam imóveis em grupos, as mãos ao lado do corpo, tentando manter a cabeça erguida, enquanto um soldado marchava diante delas, abrindo e fechando a boa com rispidez como se estivesse gritando alguma coisa. Algumas formavam uma espécie de corrente, empurrando carrinhos de mão de um lado da instalação até o outro, surgindo de um lugar além do alcance da vista e levando os carrinhos mais adiante até chegarem atrás de uma cabana, onde desapareciam novamente. Algumas permaneciam perto das cabanas em grupos silenciosos, sempre olhando para o chão, como naquele tipo de brincadeira cujo objetivo é não ser visto. Outras usavam muletas e muitas tinham ataduras em torno da cabeça. Algumas carregavam pás e eram levadas por grupos de soldados até um lugar onde não podiam mais ser vistas..."