"Você que inventou esse estado, e inventou de inventar toda escuridão
Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão"
Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado, lança das dores,
corola da cólera, por que caminhos
e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso, de repente,
entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
que flor, que pedra, que fumaça
mostraram minha morada?
O certo é que tremeu noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com teu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas
e espinhos abriu no coração um caminho queimante.
Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o
jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem
flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar
enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos
destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo
catita,parece que já vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada.
Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido
pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei
uma fera. Gritei com o pintor: "Mas o senhor não sabe que as plantas
sentem dor que nem a gente?" O homem ficou me olhando tão pálido quanto
aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o
que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca.
O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então,como se
não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra,exausto
da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais
esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Ana sentia-se animada, com vontade de viver, sabia que por piores que fossem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as que já tinha sofrido. Esse pensamento dava-lhe uma grande coragem. E ali deitada no chão a olhar para as estrelas, ela se sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. Tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Queria viver, isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana estava agora decidida a contrariar o destino. Ficara louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudade naqueles cafundós. Vivia com o medo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto... Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve. E agora ela tinha enterrado o pai e o irmão e ali estava, sem casa, sem amigos, sem ilusões, sem nada, mas teimando em viver. Sim, era pura teimosia. Chamava-se Ana Terra. Tinha herdado do pai o gênio de mula.

Fiquei pasmo ao ouvir as palavras de meu colega, vi minha vida estampada na sua. Percebi que suas dores eram as mesmas que assombravam minhas noites, e que a dor das nossas mães eram as mesmas também, mas eu não tive sensibilidade suficiente para entender a dela. Pensei que as suas lágrimas eram de alegria ao ver-me partindo, mas só agora entendi que eram de profunda tristeza, a tristeza de quem perde a única coisa que lhe sobrou na vida.
Ele deitou a cabeça em seu travesseiro e encolheu-se como se fosse uma criança precisando de colo. As tristezas de sua infância não fizeram seu corpo calar indiferente aos sentimentos como eu. Ele podia ter o corpo fraco, mas era corajoso, tinha uma coragem infinitamente maior que a minha, uma coragem que permitia que ele expressasse seus sentimentos, essa coragem era motivo de sua vergonha, e ao mesmo tempo o motivo da minha.
Fiquei ao lado dele até ele dormir, desci para minha cama, e nessa noite quem não dormia era eu. Depois dessa noite eu passei a visitá-lo em todas as madrugadas. Ele me contava seus planos e sonhos que foram menosprezados pela guerra. A cada noite que passava eu percebia que havia muito de mim dentro dele, era um “eu” que nunca consegui por para fora.
Enfim, chegou a hora que mais temíamos, a hora de embarcar em um avião e irmos para a batalha. Meu colega de beliche não falava nada, seguiu em marcha silenciosa até o avião que nos esperava, eu fui atrás. Ao chegar ele disse que era para eu não ter medo, que tudo daria certo. Não respondi. Nos posicionamos para a luta, ele permaneceu ao meu lado. Os combatentes estavam frente a frente, e o primeiro tiro veio dos inimigos, e não pararam. Por crueldade do destino, ou da guerra, o tiro passou ao meu lado, por pouco não acertou em mim, mas acertou o meu amigo, fazendo dele a primeira vitima da batalha. Ele caiu no chão com um baque surdo, vi seu sangue escorrendo. Abaixei-me a tempo de ouvir suas últimas palavras: “Usa meu corpo como escuto e te esconde em baixo dele. Isso só pode ser o destino, a bala passou do teu lado e acertou em mim, te esconde e depois volta para a tua casa para proteger a tua mãe, faça o que eu não poderei fazer!”. Ele calou.
Não pensei nem por um segundo, fui para baixo de seu corpo. Ninguém viu, estava todo mundo envolvido com a guerra. Escutei tiros até o amanhecer, permaneci imóvel durante a noite, não ousei mover um só músculo por medo de ser descoberto. Quando os tiros cessaram continuei imóvel, esperei por um bom tempo até ter certeza que não havia mais ninguém. Ao levantar deparei com o corpo de vários colegas de quarto, fiquei chocado. Minha grande dor foi ter que encarar o corpo de meu amigo. Sentei ao seu lado e fiquei esperando... O que veio foi a culpa. Senti-me o mais cruel dos homens por ter usado de seu corpo para fugir da luta. Ele foi o primeiro a morrer porque a guerra o odiava, a guerra é sinônimo de rancor e egoísmo, coisas que não haviam em seu coração. O grande inimigo da guerra é o amor, e como cada canto de meu colega era preenchido por esse sentimento, ele não foi poupado, a grande prova de sua grandeza foi ceder o seu corpo para a minha salvação, e o meu grande erro foi tê-lo aceitado. Foi esse egoísmo que garantiu a minha sobrevivência.
Vago entre os corpos e vejo o homem que traz consigo a foto do menino, não suporto tanta culpa. Poderia ir para casa e apresentar-me como único sobrevivente, minha mãe teria orgulho de mim, mas eu estaria tomando o lugar de meu amigo que foi o verdadeiro herói dessa batalha. Não conseguiria viver com o fantasma da culpa e a vergonha assombrando-me.
A cidade morta escuta um tiro tardio.
Ando no meio da rua de uma cidade vazia, totalmente morta. Vejo expressões desesperadas de pessoas jogadas ao chão que em outra vida despertam. Pessoas que há pouco eram vivas, que agora não são nada dentro de um corpo que é só matéria. E talvez tenha sido melhor assim, a guerra não poupa ninguém, os mais cheios de vida perdem as forças para sorrir. Eu nunca fui cheio de vida, mas também perdi a pouca força que tinha.
Passo por um corpo; amassada na mão direita há uma foto de um menino pequeno, e atrás há uma mensagem: “Para papai lembrar de mim quando estiver longe”. Inevitavelmente lembro de minha infância que passa a ser a mesma do pobre menino da foto, uma infância sem pai, uma infância tirada pela guerra.
Lembro que quando era pequeno vivia assombrado com essas histórias. Minha mãe contava que meu avô morrera juntamente com seus tios desta maneira. Quando ela me carregava no ventre, meu pai foi para a guerra e não voltou. Ela falava que a minha geração seria de mais batalhas, que eu seria um guerreiro e protegeria meu país. Chorei. Fui tachado de covarde e apanhei. Mamãe disse que não era justo com os antepassados que morreram em guerras. Senti culpa pelas minhas lágrimas, depois disso nunca mais chorei.
Não sinto raiva de minha mãe por pensar desta maneira, mas sim dos comandantes que punham idéias de que devíamos “proteger” os interesses do nosso país, que devíamos pegar em armas para matar os que são nossos semelhantes, e eles não pegam em armas, mandam os pais de família para lutarem e “plantam” em suas cabeças idéias patriotas para que pensem que matar é certo.
Cheguei em casa em um dia estranhamente normal. Devemos estranhar quando os dias são muitos normais, porque alguma coisa sempre está por vir. Mamãe esperava-me com um sorriso nervoso. Estranhei. Ver minha sorrir era difícil nos tempos em que vivíamos. Deu-me a noticia que mudaria toda minha vida, eu havia sido convocado para a guerra. Ela falava com um enorme orgulho, “vais servir a pátria!”. Nunca me vi em meio a tanto desespero, ele pairou em meu quarto, em cada canto, em cada móvel, como água se infiltrando em lugares improváveis. Não chorei...
Poucos dias depois eu pegava o trem para o treinamento, seria “treinado” para matar. Mamãe deixou-me na estação com lágrimas nos olhos, disse que Deus me protegeria, já que era para uma “boa causa”.
Tive uma longa e desconfortável viagem de trem, mas não creio que seja necessário relatá-la aqui. Ao chegar ocupei a parte de baixo de um beliche e a parte de cima ficou com um rapaz nascido no mesmo ano que eu, mas era pequeno, e isso fazia as dúvidas aparecerem em relação a sua idade. Mais tarde descobriria que ele seria a minha grande dor, que eu me veria estampado no seu rosto, como se ele fosse um espelho, que ele seria uma possibilidade de minha “salvação”.
No outro dia começaram os treinamentos. Percebi que não seria fácil me transformar em um combatente, mas seria muito mais difícil transformar meu colega de beliche. Ele não tinha suporte físico para agüentar tantas coisas, muito menos emocional. À noite, enquanto todos dormiam exaustos e infelizes, eu ouvia um choro baixo, abafado. Não era possível saber de onde vinha, afinal, ninguém naquele quarto estava feliz em saber que iria para a guerra. Depois de um tempo o choro sempre cessava, então em conseguia dormir “em paz”. Mas em uma noite incomum o choro não parou, conforme ia passando o tempo ele aumentava, e eu me desesperei. Ao levantar a cabeça para ver de onde o choro vinha, descobri que vinha de cima, do meu colega de beliche. Fiquei imóvel por um tempo, mas não conseguia ficar indiferente ao sofrimento dele, que vivia a mesma situação que eu. Subi e fui parar em sua cama, ele se assustou e ficou quieto, apreensivo. Olhava-me nos olhos, eu esperava alguma reação sua. Seus olhos se encheram novamente e ele disse que estava com vergonha, que não era certo um homem que estava indo para a guerra chorar dessa maneira. Perguntei o que havia de errado, se era o medo da luta que o fazia desesperar-se tanto. “Desespero-me mais a cada hora que passa, ao ver que estamos cada vez mais perto de uma luta. Não tenho medo de morrer, apavoro-me em saber que estou indo para matar. À noite lembro de minha mãe que perdeu tudo por culpa das guerras. Lhe foi tirado o pai, o marido e agora o único filho. Eu via lágrimas brotando de seus olhos quando me deu o último adeus. Ela tentou me convencer que eram de orgulho, mas meu coração sabia que aquele era o dia mais triste de sua vida. As últimas palavras que ouvi saírem de sua boca foram ‘Deus te protege’”.
CONTINUA...
Uma homenagem tardia pelo aniversário do Mário Quintana.
“Cecília, Vinícius, Manuel e Carlos sorriem mansinho, espiando Mário lá do céu, lá de cima.”
“Mas a Terra - tão azul assim, vista de longe, vista de cima - eles olham com pena. Sabem que pelo menos metade desse azul todo, depois que eles se foram, brota dali, do quartinho do Mário. Aí suspiram, tadinho, que barra!”
Caio Fernando Abreu
Acordo em uma cama completamente desarrumada onde durmo sozinha, há pouco abandonei o despertador, agora uso o sol, que vem em todas as manhãs bater em minha janela. Olho em direção ao relógio e vejo que ele não está funcionando, por isso me perco nas horas. Fecho os olhos e retorno às lembranças de meu sonho, que vão ficando mais escassas com o passar dos segundos. “Não sobrou nada!”. Realmente não havia sobrado nada de um sonho que parecia ter sido bom.
Como faz parte da rotina, levantei e fui para o banho, arrumei as coisas e me arrumei. Sai de casa para mais um dia de trabalho, um dia comum, que não faria a mínima diferença para o resto da minha vida. Chego à parada, como faço sempre, e espero o ônibus, algo me espera, uma coisa, ou pessoa, que está sempre a minha espera, mas que nunca percebe isso. Me olha com o canto dos olhos, eu repito o gesto. As lembranças vêm como uma apresentação de slides, fotos do sonho, que pouco a pouco vão ficando mais nítidas e formando uma lembrança completa. Sim!, lembrei o que havia sido o sonho, o sorriso é uma ação inconsciente, não tem como não sorrir.
Entro no ônibus e vou. Como de costume, paro na primeira parada e vou o resto do percurso à pé, vou pensando e sentindo o sonho, chego ao trabalho e faço as tarefas, esqueço de tudo. Ao final do dia chego em casa com uma vontade infinita de aproveitar o que resta do dia, mas não há nada para aproveitar. Pego minha agenda que uso como diário e escrevo as coisas comuns do dia, então lembro do sonho, descrevo a sensação única que sentia, o sorriso bobo, que no momento foi tão real. “Amo-te por sonho”. Será que isso é possível? “Te imagino como te quero”.

Incompreensivo, põe a vida; melhor!
Troca sua vida sem excitar, treme, aquele que se dava por tal, agora está entregue.
Já não é mais paixão, não sabe se é amor; é forte!
Machuca? Às vezes.
Ensina? Sempre?
Ensina que sua vida não é tão importante, se não houver aquele sentimento pequeno em palavras, porém imenso no sentido da vida.
Felipe Campos.
Escrevi este poema há um tempo para um amigo.
Tenho um amigo misterioso,
Não fala nada através de palavras,
Fala com os olhos e suas expressões.
Por vezes eu entendo,
Mas muitas vezes ele deixa algum significado vazio
Quando pego sua mão,
Sinto o sangue pulsar...
Penso em toda vida existente
Em todo o universo que está preso dentro dele.
Já pensei em não soltar aquela mão,
Mas em momentos de distração,
Puxam ela de mim...
Fico com o seu calor e seu suor
Carrego comigo por um tempo
E junto levo a saudade.
Mas uma hora a mão esfria,
E o suor seca,
Seca na minha mão
E se funde com a minha pele
Conversamos por telepatia
E por pensamento, conta suas dores.
Espero que ele saiba que há coisas que não precisam ser ditas
Muitas vezes o coração ouve e sabe o que a cabeça não entende,
Ou não quer entender...
A cabeça tem medo!
Ela se esconde em idéias tolas
Para não ter que encarar a verdade,
Que muitas vezes machuca...
2009


Ando sem a mínima criatividade, estou sendo abrigada a pôr obras dos outros no blog e não as minhas por não ter o que mostrar.
"Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975. Lembro do momento exato em que isso aconteceu, quando estava agachado por detrás de uma parede de barro parcialmente desmoronada, espiando o beco que ficava perto do riacho congelado. Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trás, agora, percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto."
“Um dia, no verão passado, meu amigo Rahim Khan me ligou do Paquistão. Pediu que eu fosse vê-lo. Parado ali na cozinha, com o fone no ouvido, sabia muito bem que não era só Rahim Khan que estava do outro lado daquela linha. Era o meu passado de pecados não expiados.”
"Sentei em um banco do parque, perto de um salgueiro. Pensei em uma coisa que Rahim Khan disse um pouco antes de desligar, quase como algo que lhe houvesse ocorrido no último minuto. "Há um jeito de ser bom de novo." Ergui os olhos para as pipas gêmeas. Pensei em Hassan. Pensei em baba. Em Ali. Em Cabul. Pensei na vida que eu levava até que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo. E fez de mim o que sou hoje."

Muito fácil pedir-me para falar agora, depois que o silêncio tomou a razão e a razão tomou a verdade. Mas falarei, tentando, inconscientemente ser perdoado, mas nunca assumindo tom de culpa! Meu orgulho não deixaria. Falarei, não como um assassino, mas como a vítima.
Ainda lembro da primeira vez que a vi. Era fim de uma tarde longa de outono, ao pé de algo que até hoje não sei o que é, olhou-me com a expressão mais frágil existente e sem falar nada, lhe dei a mão.
A via doce e delicada, com os olhos também doces e delicados. Via a pureza estampada em cada gesto seu, em cada simples movimento, só não via a crueldade escondida atrás de sua doce máscara. Foi com essa crueldade oculta que ela me encantou. Apaixonei-me.
Vivemos dias cheios e alegres, nos amávamos! Corríamos juntos em meio a jardins coloridos e cheirosos, nos sentíamos flores ao meio de tanta beleza. Mas um dia... Espere! Acho que ainda sou capaz de lembrar, lembrar de tudo, não como um acontecimento antigo, mas como se tivesse acontecido ontem. Mas um dia, correndo sem rumo com as mãos agarradas, senti sua mão me soltar, virou e começou a marchar em direção ao caminho contrário. A chamei, gritei com todas as forças que tinha, e sem olhar pra trás disse-me: “cansei, não lhe amo mais, vou procurar a minha felicidade longe de ti e do teu amor obsessivo.”. Corri e a agarrei pelo braço. Ela apenas gritou! Peguei o punhal que sempre carregava em minha cintura, por precaução mesmo, e levantei no ar. Ajoelhou-se, pediu, chorou, implorou e gritou. Mas de que adiantava gritar, caros ouvintes? Se ninguém escutaria? Cravei meu punhal em seu peito, o sangue jorrou automaticamente, as flores brancas foram tingidas de vermelho, ela foi ficando fraca... fraca... e caiu morta em meus braços.
Não me julguem louco quando digo que foi por amor, se vocês não entendem é porque nunca amaram. O amor é louco e obsessivo, é ciumento. Mente quem diz que o “amor só dura em liberdade”, ninguém que ama uma pessoa deixará ela viver com outro, apenas um pobre conformado viveria assim, e para conformado eu não sirvo. Se ela não podia me dar amor, não daria a mais ninguém.
Fui preso logo após a morte de minha amada, e não me incomodo de estar aqui. Tento não sentir culpa, mas como passo os dias relembrando, esse sentimento se torna inevitável.
Vamos lá, homens e mulheres “sãos”, julguem-me! Condenem-me! Pois é a única coisa que poderão fazer, já que nunca serão capazes de porem-se em meu lugar.
2009
Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma seqüência bastante normal de causas e efeitos.
Eu sei que é falta de criatividade fazer propaganda de um livro em um blog e colocar a introdução de trás, mas sem dúvida essa é a parte mais bonita da história, a parte em que meus olhos se encheram de lágrimas.
“Uma jovem Mariam está sentada junto á mesma, fazendo uma boneca á luz de uma lamparina a óleo. Esta cantarolando. Tem o rosto suave e juvenil, o cabelo foi lavado e está penteado para trás. E não lhe falta nenhum dente.
Laila a vê colar pedaços de lã na cabeça da boneca. Em poucos anos essa menina vai ser uma mulher que pede muito pouco da vida, que nunca incomoda ninguém, que nunca deixa transparecer que ela também tem tristezas, desapontamentos, sonhos que foram menosprezados. Uma mulher cuja generosidade, longe de ser contaminada, foi forjada pelas turbulências que se abateram sobre ela. Laila já consegue ver algo nos olhos daquela menina, algo tão arraigado que nem Rashid nem os talibãs conseguiriam destruir. Algo tão rijo e inacabável quanto um bloco de calcário. Algo que, afinal acabou sendo sua ruína e a salvação de Laila. A menina ergue os olhos. Deixa a boneca de lado. E sorri. - ‘Laila jo?’”
Tive um dia bastante diferente. Cheguei à escola e me juntaram com mais nove alunos para irmos a uma celebração por termos ganho uma verba do governo esperada há tempos. Fui.
Ao chegarmos lá haviam alguns representantes do Estado. Eles ficaram uma hora, mais ou menos, falando como a nossa governadora é boa e prioriza a educação. Falaram que agora nossa escola tem sala de informática e tal. Fiquei com vontade de dizer: “o que adianta ter sala de informática se não temos um professor monitor?”. Faltou coragem e fiquei quieta, até porque não sabia se os meus argumentos eram corretos.
Senti-me estranha. Lembrei de uma parte de um livro que li há um tempo atrás, O Menino do Pijama Listrado, que falava da visão de um menino de nove anos sobre a vida que vivia. Ele era filho de um oficial nazista, e os via bem arrumados, com os cabelos penteados e roupas bonitas. Esses oficiais cometiam atrocidades e diziam que era para o “bem da humanidade”; mostravam as coisas de um modo que pareciam corretas.
Os “nossos oficiais” falam que a educação do RS está melhorando a cada dia e na realidade qualquer um sabe que o ensino está decaindo, e o “maravilhoso” projeto que a governadora está tentando aprovar trás prejuízos à educação e aos professores.
Descobri que até então não tinha claro o que é hipocrisia. Foi a Lição do dia, já que perdemos aula para assistir a isso.
Lívia Amarante
Vidas vazias que vagam pelas ruas
Em busca de algo que nem elas sabem
Param em cada olhar,
Procuram em cada lugar
Andam encolhidas com medo do gelo interno
Que começa gelando o corpo e depois o coração
O gelo que não deixa bater
Que vai congelando e só para quando morrer
Lembram de um passado distante
E não conseguem mais ver alegria
Já mataram a criança que antes ali sorria
Pensam com dor e se conformam
Já não vivem,
Apenas andam, andam.
2009


São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.
“O silêncio é a linguagem de Deus. No principio era tudo o Verbo, vocês sabem o que é isso? O silencio, o espantoso silêncio do principio. Ah! O verbo e o silêncio são a mesma coisa. É preciso escutar o silêncio, não como um surdo, mas como um cego! O silêncio das coisas tem um sentido. Quem não entende isso não entende nada...”
“A música é a expressão mais completa do que estou dizendo. Ou do que não estou dizendo, pois é preciso ouvir apenas o que não se diz. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. A música também é silêncio. Bach sabia disso, Mozart também. Beethoven só soube quando ficou surdo. O ar não é silêncio? O vento não faz barulho? E o que é o vento senão ar? A música é o silêncio em movimento.”
"É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história."

Ontem comecei a ler "O Último Suspiro do Mouro", me arrependi de ter demorado tanto para começar a ler.
O primeiro parágrafo do livro:
“Perdi a conta dos dias que transcorreram desde que fugi dos horrores da fortaleza louca de Vasco Miranda, na aldeia de Benengeli, nas montanhas da Andaluzia; fugi da morte na escuridão da noite, deixando uma mensagem pregada na porta. E desde então, ao longo de meu caminho, junto com a fome e o calor, não têm faltado maços de folhas rabiscadas, e amareladas, e interjeições secas de pregos de duas polegadas. Há muito tempo, nos meus verdes anos, minha amada me disse num rompante amoroso: 'Ah, meu mouro, meu negro, que homem mais estranho, tão cheio de teses, sem ter uma porta de igreja onde pregá-las'..."

Uma parte da história:
"Adocicada flor, tulipa que gira meu sol. Meiga e frágil flor das pétalas de mel. Há dezesseis anos vago no campo das flores vermelhas, tapete de sangue, uniforme singeleza. E quando estas, com seus espinhos me cortaram, lágrimas me resvalaram. Outras, belas e formosas, a sândalo cheiravam. Seduzido, me entreguei aos prazeres das flores vermelhas. Já agora satisfeito, me sentia arrependido. Algo faltava, pois meu peito não calava. Triste e cabisbaixo segui sem rumo pelas malévolas flores. Nesse exato momento, um amarelo incandescente fustigou meus claros olhos, quais por instinto fechei. Suavemente fui abrindo-os novamente, enquanto uma confusão de luzes amarelas adentraram e tomaram conta de meus claros olhos. Em minha visão embaçada, distingui o formato de uma nova flor. Ela transpirava paz e meiguice em cada poro de suas pétalas, sim ela tinha milhares deles. Deu-me a mão e pediu apenas duas coisas: confiança e carinho. Tratava-se de uma exuberante, porém simples, Tulipa. " Uma parte do "O Corvo" de Edgar Allan Poe.
"...Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
'Tens o aspecto tosquiado', disse eu, 'mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.'
Disse o Corvo, 'Nunca mais'..."


"Era tarde de outono, caracterizada pelas folhas secas no chão. Havia um frio terrível no ar, um frio que lembrava inverno. É engraçado, mas ultimamente até o tempo mente, deve ser a convivência com o ser humano, usa da sua doce falsidade para iludir as mentes. Mas não vem ao caso! Pelo menos não agora.
Eu andava pelas ruas e sentia o ‘falso outono’ bater em mim. Sentei num banco e esperei, não sabia o que esperava, talvez nada. Apareceu um garoto, não era bonito, mas chamou a minha atenção. Ele não trazia nada nas mãos, talvez o silêncio, que de tão profundo parecia ser matéria. Naquele momento entendi que o silêncio não é só a falta de palavras, também é a forma de olhar e expressão.
O silêncio foi quebrado por uma música trazida pelo vendo, fazia as folhas pularem inquietas, como se estivessem apreensivas com a situação. Ele pensava e mexia em folhas secas. Eram coisas que me encantavam, as coisas simples da vida, as belezas imperfeitas que tornam as coisas tão humanas.
Depois de algum tempo o garoto se foi. Até hoje penso no Garoto das Folhas de Outono. O que se passava na cabeça dele eu nunca poderei saber, mas é isso que torna aquela lembrança tão bonita, o silêncio profundo que tornou aquele momento eterno."
2009